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O desamor pelo Brasil

Quando o retorno ao país de origem simboliza desistência

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Quando o retorno ao país de origem simboliza desistência
O desamor pelo Brasil
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Recebi a notícia sobre o incêndio ao Museu Nacional do Rio de Janeiro, e calei. Calei porque a minha primeira pergunta foi: onde ficava esse Museu e por que, em inúmeras viagens ao Rio, eu nunca fui conhecê-lo? Logo eu que ainda desfruto do trunfo de ter conhecido a Muralha da China esse ano.


Aí hoje pela manhã, me deparo com uma reportagem da BBC, dizendo que, no último ano, mais brasileiros conheceram o Louvre do que frequentaram o Museu Nacional. E embora a comparação seja gritante, existe sim uma informação relevante por detrás disso. 


Sou psicóloga e trabalho com orientação psicológica a intercambistas, e tenho observado crescentemente o desamor pelo Brasil. Não posso ser hipócrita e não me incluir nisso, até a pouco eu repetia a frase de que a única saída do Brasil é o aeroporto. Mas tenho refletido muito sobre isso nos últimos dias. 


Acredito que exista algum tipo de “fuga” no ato de buscar uma vida fora do país. Porque uma coisa é viver um intercâmbio estudantil, outra é usar disso como uma estratégia de permanecer lá fora, custe o que custar. Nos últimos tempos, por mais incentivadora que eu seja de que as pessoas devem conhecer o mundo, me pego questionando amigos, que falam sobre “largar tudo e ir para tal lugar”. Meu questionário é: o que você irá buscar lá? Como você imagina sua vida lá? 


Quando estamos descontentes, por razões emocionais, alerto que independente de onde formos, teremos que lidar com isso em algum momento. Fugir de si mesmo não é a alternativa mais sábia. Mas a resposta mais comum para minha indagação costuma repercutir no País: não dá mais para viver no Brasil, não há qualidade de vida, não tem segurança. 


E nesse ritmo de ir atrás de um lugar mais seguro, temos tido um movimento bem maior do que a fuga de cérebros já citada há muito tempo. Estamos tendo uma fuga de afetos. Investir emocionalmente em qualquer coisa tem sido tão frustrante, que está difícil fazer as pazes com o próprio país de origem. E aí me deparo com um monte de jovens lá fora, dando murro em ponta de faca, passando os maiores perrengues da vida, tendo crises depressivas e ansiosas, porque entendem que voltar ao Brasil é um ato de desistência. E isso é triste.   


Eu sempre fui muito pé no chão. Vivi meu intercâmbio de 6 meses em Londres em 2014 dizendo que retornaria ao Brasil, porque queria viver a minha atividade profissional (coisa que seria muito difícil de exercer lá fora). Eu via amigas que trabalhavam lá e sabia claramente que o que eu estava experienciando era uma atividade diferente. Eu era uma turista estudante, uma intercambista. Voltei, me readaptei (a muito custo sim), e passei a planejar as coisas conforme os meus desejos e satisfações. Hoje eu tenho uma atividade profissional que me permite viver em qualquer lugar que tenha internet, e tenho cidadania europeia também, e ainda estou no Brasil. Estarei embarcando em breve, mas com data de retorno porque, satisfeita ou não, aqui é a minha casa. 


Semana passada, ouvi um cliente (que trabalha com ecoturismo) falar de forma emocionada sobre projetos incríveis, em grande parte desenvolvidos por ONGs estrangeiras, no norte e nordeste do Brasil. E esse sentimento que estou expressando veio de forma ainda mais forte. Afinal, dizem que se não amarmos a nós mesmos, quem irá nos amar? Então traduzo isso para o patriotismo. 


Por mais que tudo pareça perdido, sem opções ou esperança, vivemos em um país fértil. E não estou dizendo: abrace a causa e não reclame. Muito pelo contrário, lute. A política tem culpa? Claro que sim, grande parte dela. Mas, na maioria das vezes, culpar o externo nos anula de participação. A imagem que o Brasil tem também é a imagem que damos a ele, somos parte disso.  


Eu acho que sim, viver no exterior é incrível. Se você tem a oportunidade de ir, vá. Qualquer experiência lá fora poderá te trazer muito conhecimento, principalmente pessoal. Mas se eu puder dar uma só dica, seria: deixe as portas abertas. Não é porque você tem um plano em mente que não pode mudar de ideia. Se as coisas não sairem conforme você imaginou, então repense, recontrate com você mesmo. 


Em 2006 foi compartilhado um texto chamado Filtro Solar, do Pedro Bial. Até hoje só leio verdades nele. E um trecho diz o seguinte: “More uma vez em Nova York, mas vá embora antes de endurecer. More uma vez no Havaí, mas se mande antes de amolecer. Viaje.” 

Desistir não é sinônimo de fraqueza. Não é por ser bacana que a vida no exterior é fácil. E ok, viver no Brasil não está fácil também. Então permita-se tentar. Mantendo os afetos em dia, você sempre será bem ido e bem vindo. Valorize aquilo que você tem, valorize o que nós temos. 

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