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Quem tem boca vai a Roma

Benefícios de viajar

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Quais os benefícios de viajar? Parece uma pergunta estúpida de tão fácil de responder. Garanto que automaticamente já lhe vieram várias palavras na cabeça. Viajar é tudo de bom. Porém, alguns dos maiores benefícios de uma viagem, muitas vezes são paradoxais e por isso não tão fáceis de explicar.

Eu estava em Bologna, na Itália, em 2014. Um casal de amigos morava lá e eu fiz o apê deles de ponto estratégico para passear nos entornos da região. Eu sairia de lá, oficialmente, apenas para ir pra Roma, de onde eu partiria de volta para a Inglaterra. Planejada que sou, tinha comprado a passagem de trem para Roma com antecedência, o que me fizera economizar uns bons reais. O trem partiria da estação central de Bologna as 8:03 do dia 4 de agosto de 2014 (parece detalhismo, mas são informações relevantes). Eu sabia qual ônibus precisava pegar para ir até a estação, minha amiga é ótima guia e me passou todas as "barbadas" antes de partir de férias e me deixar totalmente instalada em sua casa. Aproveitei a oportunidade para lavar todas as roupas possíveis (mochileiros entenderão), e me programei para levantar cedo, tomar banho, recolher as roupas e (talvez aquilo que tenha sido o maior problema) secar meus cabelos.

Saí com os minutos contados, um velho hábito que preciso largar. Tudo estava ok enquanto eu esperava na parada de ônibus, até que os minutos começaram a correr e nada de ônibus aparecer. O coração começou a acelerar, e a inquietação a bater. Era a ansiedade batendo em meu corpo e reduzindo a capacidade do meu cérebro de pensar alternativas. Nessa altura eu não sabia em que língua tentava falar (tendo em vista que os italianos por lá não falavam muito inglês e até o português era mais compreendido). Achei uma menina na parada que me informou outra opção de ônibus em outro local e, apesar da insegurança, (de sair dali e o tal veiculo decidir passar) resolvi sair correndo arrastando mala e tentar a nova sorte.

Parei na outra parada onde não tinha uma alma viva. A única coisa que eu queria eram as plaquinhas de GPS informando o horário que o ônibus passaria (estava bem mal acostumada com a vida londrina). Avistei um ônibus passando do outro lado da rua informando o nome da estação de trem no letreiro. Parti em nova disparada, correndo como uma maratonista (de mala) pelas ruas da cidade, para acompanhar onde o ônibus pararia (percebe-se que nessa altura eu havia recuperado alguma habilidade mental embora meus músculos seguissem tonificados para a atividade de lutar ou fugir). Alcancei a parada já ofegante e suando, e para minha surpresa encontro lá a primeira pessoa para quem eu pedi informação (lá no início da história). Ela possivelmente tinha feito o trajeto com mais calma, pois não estava no estado em que eu já me apresentava, contudo vê-la me deu segurança de que pelo menos eu estava no caminho certo. 

Entro no ônibus, 15 minutos até a estação. Olho para o objeto mais requisitado daquela manhã, meu relógio, que marcava 7:45. Não tinha argumento racional o suficiente para fazer o meu corpo acalmar. Pior que perder um trem, é perder por 1 minuto de atraso. Mas “não está morto quem peleia”, pensei eu, e segui correndo assim que o ônibus anunciou a parada.

A essa altura parecia que muitas horas haviam passado. Cada minuto soava como tic tac na minha cabeça. Parei em frente aqueles telões que informam o número do trem, horário e plataforma. O meu estava entre os primeiros, por motivos óbvios. Segui escada baixo torcendo para aquela estação não ser tipo aeroporto, que te dá ilusão de ser pequeno e desmembra em uma micro cidade. Escutei o apito que sinaliza o fechamento do trem e usei toda minha energia para chegar até a porta e entregar minha passagem ao fiscal (não lembro ao certo se eu tinha fôlego ainda para pronunciar alguma coisa, se é que precisava, devido minha expressão facial). Quando vi aquelas portas abrirem para eu entrar, nem me importei por não achar onde colocar minha mala. No exato instante em que eu sentei o trem começou a andar, olhei no relógio da estação e estava marcando exatamente 8:03.

Bom, a essa altura você deve estar pensando onde queria chegar com essa história. Pois eu falava de benefícios de viajar e pode ser que ela não tenha encaixado nas suas lembranças mais relevantes. Contudo, te digo que são em situações como essa que estão embutidos os maiores benefícios em viajar.

Ali, sentada naquele trem após o ocorrido, milhares de coisas me vinham a mente. A primeira delas era me dar conta que de nada havia adiantado eu me preocupar tanto com meu cabelo, isso havia atrasado a minha saída e tinha ficado ainda pior com a correria e o suor. Percebi que: eu tinha uma certa tendência a superestimar o tempo quando estava sozinha; precisei superar a timidez e usar de todos meus recursos linguísticos; entendi que de nada adianta planejamento sem organização; valorizei a pontualidade e funcionalidade dos serviços disponíveis; entendi que quando eu tenho que fazer por mim eu sou capaz de agir (consegui questionar qualquer argumento insistente do meu próprio cérebro que invalidasse minha tentativa); me dei conta que, quando tenho tempo, me preocupo com coisas fúteis; e também que consigo ser empática inclusive em situações adversas (estava com pena do senhorzinho ao lado que estava bem sereno e preparado para sua jornada até Roma e teve que tolerar minha inquietação e odor né, pois nunca antes um banho havia vencido tão rápido em minha vida).

Então, quando alguém me resume que uma viagem oportuniza crescimento pessoal, eu insisto em argumentar que esse crescimento pode vir de uma maneira diferente daquele que você está imaginando, e nem por isso deixa de ser incrível. Essa história está no portifólio de minhas maiores aventuras de viagem. Hoje lembro com nostalgia e diversão daquele dia que descobri quanto tempo leva um minuto, que conheci o sistema de trânsito de Bologna, que me conheci quanto algumas características particulares e que principalmente descobri, da maneira mais única, a razão da expressão “quem tem boca vai a Roma”.

Quem tem boca vai a Roma

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