Saúde Mental e Imigração

Viajar sozinha é um ato de coragem: dicas e reflexões

por Prô Mundo Psicologia | ago 28, 2025
Viajar sozinha é um ato de coragem: dicas e reflexões

Viajar sozinha é uma experiência cada vez mais comum, mas ainda envolve críticas e julgamentos. Em 2025, o turismo solo se tornou uma tendência global, e, mesmo com o aumento da autonomia feminina, muitos discursos de medo ainda afastam mulheres de viver essa experiência. A mulher é colocada em um lugar de constante alerta e qualquer indício remoto de um risco é um sinal para se privar de viver. É evidente que isso pode acabar impactando diretamente na saúde mental.

Para Julia Smith, brasileira que é nômade digital, viajar sempre foi um chamado, algo que a terapia a ajudou a compreender recentemente. Quando criança, ela se expunha a ambientes novos, participava de shows de talentos e até gostava de trocar de escola para fazer novas amizades. Hoje, como influenciadora digital, Julia incentiva mulheres a explorarem o mundo sozinhas. No seu Instagram @julia.pelomundo, ela compartilha sua rotina como viajante solo, recomenda destinos seguros, dicas práticas e a realidade – que não é tão “glamourizada” quanto se imagina.

Com a ajuda da Julia, neste artigo vamos nos aprofundar sobre a realidade de ser uma mulher viajando sozinha. A partir de experiências pessoais da influenciadora e de dicas práticas para perder o medo de se aventurar pelo mundo, vamos tentar te ajudar a enfrentar os verdadeiros desafios de ser uma imigrante brasileira no exterior. Vamos falar sobre aquilo que nem todo mundo enxerga.

Turismo solo como movimento cultural

O turismo solo vem ganhando força e é reconhecido pelo Ministério do Turismo como uma mudança cultural que valoriza autonomia, crescimento pessoal e flexibilidade, transformando a forma como as pessoas viajam. Essa transformação, liderada pelas mulheres nos últimos anos, é um dos movimentos mais fortes entre os jovens, especialmente da Geração Z e dos Millennials.

Com apenas 23 anos, Julia é um exemplo desse fenômeno. Aos 18, ela viajou pela primeira vez para estudar na Espanha e, após a pandemia, não parou mais de conhecer novos lugares. “Viajar sozinha foi a melhor decisão da minha vida”, afirma a nômade digital, que já visitou países como Tailândia, Estados Unidos, Argentina, Vietnã, Peru e Portugal.

A importância de cuidar da saúde mental

A decisão de viajar sozinha muitas vezes surge da vontade de aproveitar o presente e não depender da disponibilidade de amigos ou familiares. Embora esse impulso seja uma expressão de liberdade e autonomia, Julia alerta: “Estar em outro país é navegar em outro idioma, outra cultura, outros hábitos. Quando a gente está sozinha isso se manifesta em todos os sentidos, inclusive nos perrengues”, avisa a influenciadora.

A psicóloga, nômade digital e CEO da Prô Mundo Psicologia, Natalia Dalpiaz, explica que a viagem solo exige preparo emocional. “Viajar nem sempre é leve e é muito romantizado por quem não vive essa experiência. Em viagens solo, desafios como culpa, solidão e a necessidade de desenvolver competência intercultural aparecem. Preparar o emocional e contar com acompanhamento psicológico ajuda a aproveitar a experiência com mais segurança e equilíbrio”, orienta.

Foi por meio da Prô Mundo que Julia conheceu sua psicóloga, Tamires Cândido, e entendeu que sua vontade de conhecer o mundo nasceu ainda na infância. A terapia para brasileiros no exterior é essencial para lidar também com as notícias que acabam impactando dores específicas de imigrantes, nômades e expatriados. Mudanças nas leis do país que você buscava cidadania, as dificuldades para conseguir descobrir o próximo destino, burocracias e, no caso dos nômades como a Julia, as mochilas e malas que precisam ser organizadas a cada nova mudança (o que acontece com uma certa frequência).

Julia conta que é na terapia que ela encontra suporte para lidar com momentos difíceis, como a notícia do falecimento da jovem brasileira Juliana Marins, que caiu durante uma trilha na Indonésia. O acontecimento repercutiu em muitos portais pelo mundo e impactou brasileiros com o descaso para o resgate de Juliana, que impossibilitou qualquer chance de sobrevivência da jovem. Julia e Juliana pertenciam às mesmas comunidades de mochileiros e esse momento delicado fez com que a influenciadora precisasse enfrentar seus sentimentos: “Encarei de frente que existem riscos nessa liberdade que a gente vive e que ela afeta quem a gente ama também”, desabafa Julia.

Dicas práticas para viajar sozinha com segurança

Viajar sozinha exige planejamento cuidadoso. Por isso, Julia compartilha algumas práticas que considera essenciais para garantir uma experiência mais segura e tranquila:

  • Escolha de destinos: pesquisar sobre segurança, transporte, cultura local e relatos de outras mulheres que já visitaram o lugar. “A Tailândia, por exemplo, é um dos destinos mais seguros para mulheres, mas ainda assim é importante conhecer os bairros e planejar horários”, explica Julia.
  • Planejamento de itinerário: definir horários, pontos de chegada e saída, transporte público e rotas alternativas. Ter um plano ajuda a reduzir a ansiedade e permite reagir melhor a imprevistos.
  • Apps e ferramentas úteis: aplicativos de tradução, rastreamento de localização e plataformas de comunicação para manter contato com amigos e familiares podem ser alguns dos seus principais aliados. Julia reforça: “Sempre compartilho minha localização em tempo real com meus pais ou amigos”.
  • Cuidados com hospedagem: escolher acomodações bem avaliadas por outras mulheres viajantes, com boa localização, segurança visível e informações claras sobre o entorno.
  • Finanças organizadas: ter dinheiro em diferentes formas pode ajudar. Cartão, dinheiro local, apps de pagamento, etc.
  • Rotina de bem-estar: reservar tempo para descansar, alimentar-se bem e praticar exercícios ou meditação, mesmo durante a viagem. Pequenos hábitos ajudam a reduzir o estresse e a ansiedade.

Cada caso é único: lidando com emoções e desafios

A viagem solo envolve lidar com sentimentos complexos que podem variar muito para cada mulher que se permite viver essa experiência. Julia aponta que a solidão é uma das primeiras dificuldades que vem à mente da maioria, mas que, para ela, isso é diferente: “O complicado mesmo é o desgaste mental de cada pequena decisão que temos que tomar sozinha. E se você tem um orçamento específico, isso ainda pode gerar ansiedade”, compartilha a nômade. Essas são camadas específicas, que podem não aparecer para quem vai realizar viagem de 10 dias de férias, mas que, com certeza, fazem parte da vida dos nômades.

Nesse caso, a terapia se mostra um recurso valioso. Natalia Dalpiaz reforça: “Conversar com um psicólogo intercultural ajuda a processar o choque cultural, reconhecer medos e compreender que esses sentimentos são naturais. É uma preparação emocional que permite viver a viagem de forma mais leve e consciente”, destaca a profissional.

Isso porque momentos de vulnerabilidade são inevitáveis – e quando se está sozinha, compreender esses sentimentos torna tudo mais leve. Quando Julia soube do falecimento de Juliana Marins, por exemplo, ela sentiu tristeza, medo e fez uma reflexão profunda sobre os riscos de viajar sozinha. Mas foi na preparação emocional e no apoio terapêutico com acolhimento que foi possível compreender de onde vieram esses sentimentos e seguir explorando o mundo com propósito.

Viajar sozinha é um ato de coragem

Ser uma mulher que viaja sozinha tem camadas adicionais: “Tenho que me planejar para chegar durante o dia. Leio avaliações de outras mulheres sobre os locais, já chego no destino com internet para me comunicar e sempre compartilho minha localização com meus pais ou amigos”, conta Julia.

E mesmo com todos os cuidados, ela recebe comentários negativos: “Doida e inconsequente são alguns dos adjetivos que escuto”, conta. Mas ela reforça que planejamento, informação e experiência superam julgamentos: “O medo se combate com conhecimento e prática, não com opiniões de quem nunca nem saiu do sofá”.

Além disso, os dados mostram que viajar sozinha nem sempre é mais perigoso do que permanecer em casa. Segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública, 64,3% dos feminicídios ocorreram dentro de casa, e em São Paulo, quase 70% das vítimas foram mortas dentro de casa. “Estatisticamente, estar em casa é mais arriscado, mas ainda assim vemos culpabilização de mulheres. É importante contextualizar os riscos e não se deixar intimidar”, afirma Julia.

Comece devagar e respeite seus limites

Para quem sente medo ou insegurança, Julia recomenda começar próximo de casa. Viagens curtas, para estados vizinhos ou destinos em grupo, podem ser um primeiro passo para ganhar confiança. “Ninguém vai tirar a sua ‘carteirinha de viajante sola’ por isso. O importante é respeitar seus limites, mas não deixar que eles definam o tamanho do seu mundo”, conclui.

Transformando experiências em aprendizado

Viajar sozinha não é apenas sobre deslocamento ou turismo. É sobre reencontrar-se, descobrir forças que talvez estivessem escondidas. É sobre aprender a confiar em si mesma. Mais do que colecionar carimbos no passaporte, é colecionar versões novas de quem você pode ser. Quando uma mulher viaja sozinha, ela não está apenas vivendo uma experiência individual: ela desafia estereótipos, amplia possibilidades para outras mulheres e ajuda a transformar a forma como a sociedade entende a liberdade feminina.

A Prô Mundo é formada apenas por psicólogas mulheres, porque queremos fazer a nossa parte nessa e em tantas outras transformações necessárias para que as mulheres tenham seus direitos garantidos. É mais do que viajar sozinha: é sobre acolhimento, apoio, propósito, coragem. E se você pensa em dar esse passo, lembre-se: não existe jeito “certo” de viajar sozinha. Existe o seu jeito, com seus ritmos e escolhas. Comece devagar, informe-se, busque apoio se precisar e, acima de tudo, permita-se viver a experiência.

E se você precisar do nosso apoio, conte com as nossas psicólogas. Entre em contato e agende um atendimento online. Estamos aqui para você, sempre juntas.

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