Saúde Mental e Imigração

Entre culturas: mantendo raízes sem perder a conexão com o novo país

por Prô Mundo Psicologia | set 30, 2025
Entre culturas: mantendo raízes sem perder a conexão com o novo país

Mudar de país é muito mais do que trocar de endereço ou aprender um novo idioma. É atravessar um portal invisível que nos coloca diante de paisagens diferentes, sabores inesperados, tradições inéditas e, ao mesmo tempo, diante de nós mesmos, em versões que talvez nunca tivéssemos conhecido se não fosse pela experiência intercultural.

Quem já viveu essa travessia sabe: morar fora é uma mistura intensa de emoções. Por um lado, há entusiasmo, descobertas e oportunidades de crescimento. Por outro, surgem a saudade, a solidão e a sensação de estar sempre em trânsito, sem nunca se sentir completamente “em casa”.

Viver entre culturas é como aprender a dançar um ritmo que mistura passos conhecidos e movimentos novos – às vezes com graça, às vezes tropeçando. Há dias em que a música embala e tudo parece se encaixar, e outros em que a coreografia parece impossível. O coração fica dividido, os pensamentos se embaralham, e até o corpo pode acabar sentindo a adaptação: sono desregulado, alterações de humor, sensação de isolamento… Aos poucos aparecem os impactos.

E nesse processo, surge uma questão central: como manter viva a conexão com suas origens enquanto se abre para a nova cultura? Para muitos imigrantes, preservar vínculos com o país natal não é apenas uma escolha afetiva, mas uma necessidade de equilíbrio. As raízes trazem estabilidade, funcionam como porto seguro e fortalecem a identidade no meio das mudanças.

E aqui está a boa notícia: é possível manter suas raízes sem perder a conexão com o novo país. Quando isso acontece, nasce um pertencimento híbrido, múltiplo, que pode enriquecer profundamente sua identidade.

Neste texto, vamos caminhar juntos por alguns aspectos dessa experiência. Vamos reconhecer desafios, descobrir forças e explorar ferramentas que ajudem a cultivar o equilíbrio entre quem você era e quem está se tornando.

Reconhecendo a dualidade das emoções

A vida intercultural traz uma avalanche de sentimentos que, muitas vezes, parecem contraditórios. Você pode sentir orgulho por se adaptar a uma nova realidade e, ao mesmo tempo, uma pontada de culpa por achar que está “esquecendo” suas origens. Pode sentir alegria ao celebrar uma conquista no país de acolhida, enquanto chora ao lembrar de uma festa de família que perdeu no Brasil.

Essas emoções opostas não são sinal de fraqueza, mas parte natural do processo. A psicologia intercultural chama esse fenômeno de luto migratório. Um luto não só pela terra deixada, mas também pelas versões de nós mesmos que ficaram lá. E, como todo luto, ele precisa de tempo e acolhimento.

Dar nome às suas emoções é o primeiro passo. Você sente saudade? Medo? Ansiedade? Entusiasmo? Tudo isso pode coexistir. Reconhecer essa dualidade é abrir espaço para se compreender melhor e lidar com as dificuldades com mais leveza.

O choque cultural

Esse estranhamento e mix de emoções tem até nome: choque cultural. É a forma como nossa mente e nosso corpo reagem ao encontro com uma realidade diferente da que sempre conhecemos. Ao mesmo tempo em que surgem encantamento e curiosidade, também podem aparecer frustrações, inseguranças e a sensação de não se encaixar totalmente. Ele pode se manifestar em fases:

  • Euforia inicial: Quando tudo parece fascinante e cheio de possibilidades.
  • Crise ou choque: Quando surgem dificuldades com a língua, burocracia, solidão e diferenças culturais.
  • Ajuste: Aos poucos você encontra estratégias para lidar com as diferenças.
  • Integração: Quando você começa a se sentir parte do novo lugar sem perder sua identidade original.

É importante lembrar que a sua adaptação em um novo país não é um processo linear. Você pode avançar e recuar entre fases dependendo do contexto. Ter consciência delas ajuda a compreender suas próprias reações e a lidar com menos culpa quando a saudade ou a frustração aparecem.

A cada desafio superado, você descobre habilidades que talvez não conhecesse: flexibilidade, empatia, criatividade, capacidade de resolver problemas, entre outros. Essas competências interculturais não servem apenas para sobreviver fora do país. Elas se tornam parte de quem você é e podem ser usadas em qualquer contexto: na carreira, nos estudos, nos relacionamentos…

Aos poucos, você percebe que a experiência migratória não é só sobre perdas, mas também sobre ganhos invisíveis, que vão se revelando com o tempo.

O impacto da língua na identidade

Aprender um novo idioma é uma das maiores portas para a integração. Porém, falar outra língua não é nada fácil e também pode trazer desafios emocionais.

Muitos imigrantes relatam sentir que ficam “menos inteligentes” ou “menos engraçados” em outra língua. Piadas perdem o timing, expressões parecem artificiais, e algumas emoções simplesmente não encontram tradução exata. Isso pode gerar insegurança e até um certo estranhamento consigo mesmo.

Quem nunca se viu ensaiando frases na cabeça antes de falar, com medo de errar a gramática? Ou, ao contrário, rindo sozinho porque descobriu uma palavra que não existe em português, mas que expressa exatamente aquilo que sente? O idioma é muito mais do que comunicação: é também identidade, memória e afeto.

No fim, falar outro idioma expande horizontes e permite descobrir novas formas de pensar; Palavras estrangeiras carregam visões de mundo que podem enriquecer sua forma de se expressar. Você não precisa escolher entre ser quem era ou quem está se tornando: pode ser os dois, em camadas.

Ferramentas para navegar com mais leveza

Algumas práticas podem tornar essa travessia intercultural menos pesada:

  • Competência intercultural: aprenda a escutar sem julgar, a observar antes de reagir e a cultivar curiosidade em vez de resistência diante do novo.
  • Rituais de autocuidado: respiração, meditação, exercícios físicos ou simplesmente caminhar por lugares que tragam sensação de pertencimento.
  • Diário de bordo emocional: registrar sentimentos, conquistas e aprendizados pode ajudar a enxergar sua evolução com mais clareza.
  • Conexão com comunidades locais: participar de grupos de brasileiros, mas também se abrir para conhecer pessoas do novo país, cria equilíbrio entre raiz e expansão.
  • Pequenas metas: aprender uma palavra nova por dia, experimentar uma comida típica por semana ou conversar com um vizinho são passos que constroem segurança pouco a pouco.

Pertencimento: reinventando o conceito de “casa”

Muitos imigrantes relatam sentir que “não pertencem totalmente” a lugar nenhum. No Brasil, são vistos como diferentes por já terem vivido fora. No novo país, carregam sempre o rótulo de estrangeiro.

Essa sensação pode ser dolorosa, mas também abre espaço para uma nova compreensão: pertencer não é estar preso a um único lugar, mas construir pontes em diferentes direções.

“Casa” deixa de ser apenas o endereço onde você mora e passa a ser um conjunto de símbolos e afetos. Pode estar no cheiro do café passado do jeito brasileiro, na praça onde você gosta de caminhar no novo país, no abraço de uma amizade que compreende sua mistura ou até em músicas que conectam diferentes fases da sua vida.

Seu sotaque misturado, suas memórias afetivas e sua capacidade de transitar entre mundos fazem parte de um pertencimento múltiplo. Você não precisa escolher uma única casa, mas pode habitar várias ao mesmo tempo, como quem aprende a ter mais de uma raiz.

Como preservar sua brasilidade?

Mudar de país não significa apagar sua história. Muito pelo contrário: suas raízes são a base para sustentar o processo de adaptação. Pensando nisso, pequenos gestos podem ajudar a manter vivo o vínculo com o Brasil:

  • Cozinhar pratos típicos que você sente saudade de provar ou frequentar algum restaurante de comida brasileira para matar a vontade daquele arroz com feijão que só a gente sabe fazer.
  • Celebrar datas especiais como o São João, o Carnaval ou o Natal com rituais familiares adaptados à nova realidade.
  • Falar português em casa ou com amigos próximos – preservando a musicalidade da língua materna e a intimidade que só ela carrega.
  • Transmitir tradições aos filhos, contando histórias, cantando músicas ou ensinando brincadeiras. Essas práticas não são apenas para matar a saudade do Brasil, mas sim formas de alimentar sua identidade. Elas lembram que você carrega um pedaço da sua terra consigo, sem importar em qual parte do mundo você está.

Quando pedir ajuda é sinal de coragem

Nem sempre é fácil atravessar tudo isso sozinho. Há momentos em que a saudade, a ansiedade ou o sentimento de não-pertencimento se tornam intensos demais. Nessas horas, buscar apoio psicológico pode ser fundamental.

Uma psicóloga com olhar intercultural pode oferecer acolhimento em português e sensibilidade para compreender as especificidades da vida migratória. Falar sobre suas dores e conquistas em um espaço seguro ajuda a transformar a travessia em aprendizado.

Lembre-se: pedir ajuda não é fraqueza, mas uma forma de cuidado e coragem.

Raízes e asas

Viver entre duas culturas é um convite a equilibrar raízes e asas. As raízes lembram de onde você veio, sustentam sua história e dão sentido às suas escolhas. As asas permitem explorar novos horizontes, descobrir possibilidades e reinventar sua identidade.

Você não precisa escolher entre uma coisa ou outra. Pode ser ambos. Pode ser muitos. Pode ser inteiro, mesmo em pedaços espalhados pelo mundo.

E se, em algum momento, sentir que esse caminho está pesado demais, lembre-se de que você não precisa trilhar sozinho. Nós, da Prô Mundo, estamos aqui para caminhar com você.

Gostou desse texto? Compartilhe com alguém que também vive a experiência de estar entre duas culturas.

Quer dar o próximo passo? Então conheça nossa equipe de psicólogas interculturais e encontre apoio para seguir com mais leveza nessa travessia.

No fim, você percebe que o mundo não te divide, mas te multiplica – e o resultado é uma nova versão de você.

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