
Olá, imigrantes!
Quando deixamos nosso país, muita coisa fica para trás: familiares, amigos, costumes, cheiros, sabores e… palavras. Talvez a gente nem perceba de primeira, mas uma parte enorme de quem somos está diretamente ligada ao idioma que falamos. É na língua materna que nos formamos, nos emocionamos, damos risada, brigamos e nos apaixonamos. É nela que nos reconhecemos como pessoas e passamos pelas principais fases da nossa formação.
Se você já tentou aprender outro idioma e sentiu aquele desconforto, aquele bloqueio ou até mesmo uma tristeza que não sabe bem de onde vem, saiba que isso é normal.
Porque aprender um idioma não é só decorar regras gramaticais, não é só repetir frases prontas. É, de certa forma, nascer de novo, com uma nova identidade.
Assim como mudar de um país para outro nos impacta profundamente e nos muda em diversos aspectos, quando aprendemos outro idioma entramos em um processo profundo de reinvenção.
Por isso, imigrante, hoje vamos falar do nosso charmoso português e também trazer algumas dicas para te ajudar a acessar o seu “eu” em outra língua.
O idioma é o espelho da cultura
Antes de mergulharmos nas estratégias práticas para aprender uma nova língua, vale a pena refletir sobre a importância do idioma na construção da nossa visão de mundo e na forma como expressamos nossa identidade.
O gingado do português brasileiro
Você já percebeu como cada idioma carrega um jeito próprio de ver o mundo? A língua é a forma principal de expressão de um povo e o português brasileiro é um ótimo exemplo disso.
Se o Brasil é o país do futebol arte e ninguém consegue jogar com a desenvoltura que jogamos, nosso idioma também é cheio de gingado e poesia, como uma dança. E se quando pensam no Brasil o Carnaval é a primeira associação feita, somos carnavalescos até nas palavras. Herdamos expressões indígenas, africanas, europeias e criamos um vocabulário afetivo e musical. Transformamos o formato tradicional e erudito da língua portuguesa à nossa maneira. O ator e humorista Gregório Duvivier falou sobre o tema em entrevista ao refletir sobre como o nosso português é, ao mesmo tempo, uma língua sofisticada e completamente descontraída.
Nosso idioma é moldado pela criatividade popular, pela música, pela cultura de rua e, claro, pelo nosso eterno espírito de Carnaval. Só na nossa língua existe a palavra ‘cafuné’. Só nela existem as palavras ‘xodó’ e ‘dengo’. Imagina não poder dizer que fez um cafuné no seu dengo enquanto assistia a um filme? Não dá, né? Trocar ‘cafuné’ por ‘carinho na cabeça’ é muito borocoxô – por sinal, outra palavra que só existe no português brasileiro.
Falando nisso, como poderíamos explicar o significado de borocoxô para um estrangeiro? Dá até para tentar arranhar uma definição, claro, mas perde-se uma camada de afeto, de pertencimento, de compreensão instantânea.
Quando nos comunicamos em outro idioma, o que acontece?
Aprender uma nova língua é mais do que se fazer entender. É um processo interno que envolve emoções, memórias e, muitas vezes, confrontos com quem somos.
Palavras que carregam memória
Atores e atrizes precisam entrar nas vidas dos personagens e encontrar significado em cada fala para criar um conjunto de sentidos. Eles buscam se transformar em outras pessoas e talvez por isso eles sejam capazes de compreender a importância da língua como ninguém. Como assim? A gente explica.
O ator brasileiro Wagner Moura contou em entrevista que, quando fala “pai” ou “mãe” em português, essas palavras vêm carregadas de lembranças, de afeto, de uma vida inteira. Mas, quando usa “father” ou “mother”, em inglês, não acontece a mesma coisa. As palavras não trazem memória, não acionam as mesmas emoções.
E isso faz todo sentido. A língua não é apenas um código. Ela é, também, um repositório de memórias afetivas, culturais e emocionais. Aprender uma nova língua é, portanto, mais do que memorizar vocabulário. É tentar preencher palavras que, inicialmente, estão vazias de significado pessoal.
Outra artista que também nos ajuda com a reflexão é a premiada Fernanda Torres, que compartilha um pensamento semelhante ao falar sobre o desafio de atuar em outro idioma. Para ela o mais difícil não é a pronúncia perfeita, nem a gramática correta. O verdadeiro teste é conseguir acessar suas emoções, seus sentimentos, sua verdade, em uma língua que não é a sua.
E, cá entre nós, isso vale não só para os palcos ou as telas. Vale para todos nós, imigrantes, que tentamos, dia após dia, nos expressar, nos fazer entender e, sobretudo, nos sentirmos inteiros em uma nova língua.
Aprender outro idioma é difícil, mas pode ser prazeroso
Sim, é desafiador sair da zona de conforto e se lançar no aprendizado de uma nova língua. Mas existem formas mais leves e humanas de atravessar esse processo.
Provoque uma imersão diária
Sabe aquela sensação de estar cercado pelo idioma quando você viaja? Dá para criar algo bem parecido sem nem precisar sair de casa. E não, isso não significa estudar horas e horas todos os dias, mas sim trazer o idioma para o seu cotidiano de forma natural. Por mais simples que pareçam, pequenos hábitos podem ajudar.
Por exemplo, configurar o seu celular para o idioma que você deseja aprender pode facilitar o seu aprendizado a longo prazo. Um passo mais ousado, se você já tiver um certo nível de conhecimento da língua que está estudando, pode ser tentar assistir séries e filmes sem legendas. A dica principal é: pense em como você pode inserir o aprendizado no seu dia a dia de forma natural para entrar de cabeça no idioma.
Experimente:
- Mudar o idioma do seu celular e dos seus aplicativos para o que você deseja aprender.
- Ouvir músicas, podcasts e rádios no idioma-alvo enquanto faz atividades do dia a dia.
- Colar post-its com o nome dos objetos pela casa.
- Seguir perfis de nativos nas redes sociais e acompanhar as postagens do dia a dia.
- Ler notícias, blogs ou artigos sobre assuntos que você gosta no idioma.
- Ativar legendas automáticas em vídeos no YouTube, em vez de usar tradução.
- Assistir séries e filmes com áudio original e, conforme seu nível, tentar reduzir ou até tirar as legendas.
- Narrar mentalmente suas tarefas diárias no idioma, como “agora estou lavando a louça” ou “vou ao mercado”.
- Trocar mensagens com amigos que também estão estudando, só que no idioma que vocês querem aprender.
- Participar de grupos no WhatsApp, Telegram ou fóruns onde se converse no idioma.
- Anotar listas, planejamentos e lembretes (como a lista de compras) no idioma que está aprendendo.
- Praticar a fala com assistentes virtuais (Siri, Google Assistente, Alexa) configurados no idioma.
A ideia aqui é deixar de tratar o idioma como uma “matéria” e começar a vivê-lo como parte do seu mundo.
Pratique. Mesmo com medo.
Existe um medo que assombra quase todo imigrante: o de falar errado. De errar o tempo verbal, de esquecer uma palavra no meio da frase, de ter aquele sotaque que, muitas vezes, entrega logo que não somos nativos.
Mas deixa eu te contar um segredo: isso não importa.
Ninguém espera que você fale perfeitamente. As pessoas querem te entender, e mais do que isso, muitas vezes ficam encantadas com o esforço de quem tenta se comunicar em uma língua que não é sua. Por isso, sempre que puder, puxe papo com nativos. Na fila do mercado, na academia, no ponto de ônibus. E se isso ainda parece assustador, comece online. Aplicativos como Tandem e HelloTalk conectam você com pessoas do mundo todo que estão dispostas a trocar conversas no idioma que você quer aprender.
O erro faz parte. E, acredite, é sinal de que você está aprendendo.

Seu celular pode (e deve) ser seu aliado
Se você acha que aplicativos como o Duolingo são só uma brincadeira, já pode ir repensando, imigrante. Eles são, sim, ferramentas super válidas, especialmente para criar uma rotina de estudo leve e divertida.
Além dele, outras ferramentas podem ser grandes aliadas:
- DeepL e Google Tradutor: vão além da tradução palavra por palavra. Eles te ajudam a entender o contexto e sugerem formas mais naturais de se expressar.
- ChatGPT: para auxiliar na prática da escrita e tirar dúvidas.
- Anki: aplicativo de flashcards super eficiente para memorizar vocabulário.
Encontre sua voz nesse novo idioma
No fim das contas, aprender uma nova língua é muito mais do que um processo intelectual. É um processo emocional.
É se permitir, pouco a pouco, encontrar uma nova versão de você. Talvez uma versão que fala de forma mais direta, mais simples, mais prática como algumas línguas exigem. Ou, quem sabe, uma versão mais contida, mais formal, mais cuidadosa com cada palavra.
Você vai descobrir que certos sentimentos são mais fáceis de expressar em um idioma do que em outro. Vai perceber que algumas piadas não funcionam, e que, por outro lado, outras situações ficam muito mais engraçadas em outra língua.
E tudo bem. Isso faz parte de se reconstruir. Faz parte de criar um novo lar dentro de você, mesmo estando longe de casa.
Cada palavra é uma ponte
No final, cada palavra nova que você aprende é uma ponte. Uma ponte para uma conversa, para uma nova amizade, para uma oportunidade profissional. Mas, acima de tudo, é uma ponte para você se sentir mais pertencente, mais inteiro, mais capaz de viver essa nova vida que você escolheu construir.
Então, se hoje você ainda sente que se perde no meio das palavras, saiba: isso é temporário. Com tempo, consistência e um pouco de leveza, você vai se encontrar.
E quando isso acontecer, perceberá que, sim, é possível dançar, rir, amar e até fazer um bom cafuné em qualquer idioma.
Você não está sozinho nessa jornada
Se você sente que precisa de apoio para viver esse processo de forma mais leve e acolhedora, conte com a gente.
Oferecemos:
- Terapia online com psicólogas especializadas em atender brasileiros no exterior
- Uma comunidade exclusiva para troca, acolhimento e amizade
- Um espaço seguro para você explorar sua nova identidade linguística e emocional
Na Prô Mundo Psicologia, entendemos que aprender outro idioma vai muito além de regras e vocabulário. É sobre pertencimento, identidade e emoções. É também aprender a se sentir seguro, confiante e capaz nesse novo capítulo da sua vida.
Por isso, além da terapia online com psicólogas especializadas em atender brasileiros que vivem no exterior, criamos uma comunidade exclusiva para nossos pacientes. Um espaço de acolhimento, partilha e conexão, onde você pode se sentir compreendido, trocar experiências e, quem sabe, até fazer amizades que te ajudem a treinar o idioma de forma leve e divertida.
Abraços virtuais!


